Sindicalistas estrangeiros afirmam que trabalho da AVABRUM inspira luta global por segurança e direitos dos trabalhadores

Sindicalistas da Alemanha e Inglaterra se encontram com familiares de vítimas do rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão e falam sobre as perspectivas sobre o julgamento contra a Tüv Süd, que acontecerá na Alemanha

Uma luta já globalmente conhecida e inspiradora, apesar de dolorosa. Foi assim que o sindicalista alemão Michael Wolters, secretário do Departamento de Assuntos Políticos e Internacionais do Sindicato Industrial de Mineração, Química e Energia – IGBCE, da Alemanha, definiu o trabalho da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM).

Nos dias 7 e 8 julho, Wolters e Tom Grinter, diretor da IndustriALL Global Union, da Inglaterra, estiveram em Belo Horizonte e Brumadinho para reforçar o apoio em prol dos familiares dos trabalhadores vítimas da tragédia na barragem da Vale, além de fortalecer o suporte em favor de todos os atingidos. Os sindicalistas lutam para dar visibilidade em escala global ao segundo maior desastre industrial do século e o maior acidente de trabalho do Brasil, que matou 272 pessoas.

Eles apoiam os trabalhadores brasileiros na ação contra a Tüv Süd. Uma audiência para o julgamento da empresa ocorrerá no dia 19 de setembro em Munique, cidade sede da Tüv Süd, e irá determinar se ela tem culpa na tragédia de Brumadinho por ter emitido, quatro meses antes do colapso da barragem B1 da Mina Córrego Feijão, um laudo que atestava sua estabilidade.

Na quinta-feira, dia 7 de julho, com a presidente da AVABRUM, Alexandra Andrade, os dois sindicalistas participaram de um seminário no auditório da Escola Superior Dom Helder Câmara, em Belo Horizonte. O tema do encontro foi (Movimento em Memória do Crime Ocorrido em Brumadinho e Articulação Solidária Internacional). O debate foi mediado por Juliana Braga, moradora de Brumadinho e advogada da Garcez Advocacia, um dos escritórios que entraram com ação contra a Tüv Süd, na Alemanha. O evento contou ainda com a participação do advogado Ângelo Remédio, na tradução simultânea, que também atua na Garcez Advocacia.

Tom Grinter contou que o sindicato está realizando uma grande campanha na Europa para a segurança no trabalho. “A gente tem feito uma campanha forte para conscientização da segurança e saúde dos trabalhadores, (que é uma luta contínua) e é preciso união dos trabalhadores para que esta mudança ocorra”, afirmou o sindicalista.

Michael Wolters lembrou da luta da AVABRUM e afirmou que ela inspira muitas pessoas pelo mundo. “A luta de vocês é globalmente conhecida e ao mesmo tempo que ela é dolorosa, ela é inspiradora”. Ao final de seu depoimento, Michael afirmou que é preciso dar um basta à impunidade.

A presidente da AVABRUM, Alexandra Andrade, agradeceu a visita dos sindicalistas e o apoio que eles estão dando para a associação no julgamento. “A nossa luta é por justiça e por cada um que se foi nesta tragédia-crime”, disse. Alexandra afirmou que o apoio deles é fundamental para a causa da AVABRUM. “Este apoio ajudará a publicizar a nossa luta e a pressionar a justiça no caso”, declarou.

Em Brumadinho, bate-papo com familiares

O encontro entre sindicalistas e diretoria da AVABRUM continuou na tarde de sexta-feira, 8 de julho, no Centro de Convivência da associação. Os ativistas estrangeiros conversaram um pouco com diretoras e membros da associação, com a mediação e tradução da advogada Juliana Braga, da Garcez Advocacia.

” Nós estamos aqui hoje pensando na luta em favor dos familiares das vítimas e dos trabalhadores sobreviventes, para que esta tragédia-crime sempre seja lembrada e para que haja devida condenação da Tüv Süd”, pontuou Juliana.

A ação foi ajuizada na Alemanha em favor de 183 pessoas, incluindo familiares de trabalhadores vítimas da tragédia e trabalhadores sobreviventes. “Nós teremos uma audiência inicial em 19 de setembro, em que será oportunizado uma negociação com a Tüv Süd e caso ela for infrutífera, teremos uma instrução processual”, completou Juliana.

Tom Grinter relembrou a trajetória da AVABRUM e afirmou que a associação é reconhecida mundialmente pela sua luta por justiça. “A luta dos sindicatos é para ajudar vocês e preservar a vida dos trabalhadores, para que acidentes como este não aconteça mais”, afirmou.

“É necessário levar a luta de vocês para a Alemanha, levar o sofrimento de vocês, a fala e a história de vocês para o nosso país. Precisamos mostrar o que as companhias alemãs fazem em território estrangeiro. Elas precisam ter cuidado com o que fazem em outros países, para que casos como o de Brumadinho não aconteçam em outros lugares. Este caso deve deixar um legado para todos nós”, colocou Michael Wolters.

Diretora da AVABRUM, Maria Regina da Silva relembrou sua filha, morta na tragédia. “Eu perdi minha filha em um estado deplorável. Ela tinha 29 anos. Eles (os trabalhadores) davam muito valor para aquela empresa e esta é a maior revolta nossa”, falou Dona Regina.

“Eu perdi a minha irmã. Eliane, de 39 anos, que estava grávida de sua filha. Ela foi encontrada 69 dias após a tragédia. O que nós passamos e até este determinado momento, até hoje nem Vale e Tüv Süd se manifestarem como forma de solidariedade a nós”, pontuou Josiane Melo, também diretora da associação.