Delegação brasileira cumpre agendas em Berlim e Frankfurt e reforça denúncias em instituições europeias
A Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM) segue em mobilização na Alemanha desde o início de novembro. Após compromissos em Berlim, a comitiva leva agora a luta por justiça para Frankfurt, apresentando reivindicações a organizações de direitos humanos, entidades políticas e redes de pesquisa internacional. O objetivo é impedir que o crime de Brumadinho seja silenciado e garantir que a responsabilização alcance todos os agentes envolvidos.
Durante a passagem por Berlim, a delegação participou de uma homenagem promovida pela Hans Böckler Stiftung (Fundação Hans Böckler). Foram lembradas as 272 vidas interrompidas pelo colapso da barragem da Vale em Brumadinho e também as 20 vítimas de Mariana, atingidas em 2015 pela ruptura da barragem da Samarco/BHP/Vale.
Nos dias 3 e 4, ocorreram reuniões com o European Center for Constitutional and Human Rights (Centro Europeu de Direitos Humanos e Constitucionais), Misereor (Obra Episcopal da Igreja Católica Alemã para Cooperação e Desenvolvimento), Kobra (Coordenação Brasil-Alemanha) e FDL (Fórum de Direitos Humanos e Empresa). Nessas conversas, a AVABRUM e o Instituto Cordilheira falaram sobre a falta de avanço no processo penal na Alemanha, a ausência de acesso aos autos, a proximidade de prazos de prescrição e a necessidade de pressão pública para impedir a impunidade.
Também foi realizado encontro com a deputada federal Charlotte Neuhauber, no Parlamento Alemão. A comitiva entregou documentos, relatou a situação dos processos no Brasil e cobrou atenção institucional ao Ministério Público do país europeu. A deputada manifestou interesse em acompanhar o caso e avaliar formas de colaboração política.

Em Frankfurt, a delegação participou de uma conferência, onde a diretora Josiane Melo relatou como a AVABRUM nasceu da necessidade de enfrentar o silêncio das empresas e exigir respeito aos mortos. Ela também destacou a importância da memória e afirmou que a luta contra o esquecimento é parte essencial da busca por justiça. Pablo Martins, advogado do Instituto Cordilheira, explicou o longo processo judicial em Munique e informou sobre o início das audiências nos tribunais brasileiros. Danilo Chammas, também do Cordilheira, descreveu a reunião realizada no dia anterior com o Ministério da Economia da Alemanha e reforçou a urgência de posicionamento do Estado diante de crimes corporativos.
A delegação segue com participação na conferência internacional “Gegenmacht und Gegenstrategien in transnationalen Wertschöpfungsketten”, traduzida como “Contra-poder e contraestratégias em cadeias de valor transnacionais”. O encontro reúne pesquisadores, sindicatos e organizações de diversos países para debater violações em cadeias globais de produção, tentativas de flexibilizar leis protetivas, impactos da digitalização no trabalho e caminhos para fortalecer mecanismos de denúncia, reparação e controle das empresas transnacionais. A AVABRUM participa do grupo que discute Brumadinho como exemplo de resistência e solidariedade entre Norte e Sul Global.
A presença da associação na Alemanha reafirma que a memória das vítimas continua viva e que nenhuma fronteira é capaz de impedir a busca pela verdade, reparação integral e punição. Para a AVABRUM, segue sem resposta a pergunta: por que, quase sete anos após o crime, ainda não existe julgamento definitivo?
“Nós atravessamos continentes para dizer que não aceitamos esquecimento. Viemos porque nossos mortos não podem falar e porque a justiça não pode ter nacionalidade. Enquanto houver impunidade, haverá luta”, afirma Josiane Melo, diretora da AVABRUM.



