No encontro, a AVABRUM destacou protagonismo, representatividade, bandeiras e a importância da participação nos debates sobre os rumos da mineração
A luta por uma mineração que respeite a vida, a verdade e a justiça voltou ao centro das discussões em Brumadinho, durante o encontro que reuniu investidores internacionais, representantes do Ministério Público e especialistas do setor no Memorial Brumadinho. A AVABRUM, formada pelos familiares das 272 vítimas do rompimento da barragem da Mina da Vale em Córrego do Feijão, reafirmou seu papel como principal voz autônoma da sociedade civil na defesa dos direitos das famílias e na cobrança por uma transformação profunda na indústria mineral.
A atividade integrou a agenda da Comissão Global de Investidores em Mineração 2030, iniciativa internacional voltada à construção de um novo modelo de mineração baseado em ética, responsabilidade e sustentabilidade. O grupo, formado por representantes de fundos de investimento e instituições globais, esteve em Brumadinho para conhecer o Memorial em homenagem às vítimas do rompimento da barragem da Vale e dialogar sobre os desafios de uma transição justa no setor mineral. A visita contou ainda com representantes do Ministério Público de Minas Gerais, da AECOM Brasil e do Banco Fator.
Durante o encontro, a AVABRUM destacou a união das famílias nos primeiros 30 dias após a tragédia, diante da falta de notícias sobre seus entes queridos, e a necessidade de um ofício ao Ministério Público para obter acesso às informações sobre as buscas e o trabalho do IML. Foi relatado, ainda, que com o passar dos dias, os familiares foram se agregando e perceberam a importância de acompanhar as investigações, as CPIs e a luta por justiça e direitos. Os convidados ainda tiveram conhecimento sobre o processo que levou à criação do Memorial como local de salvaguarda dos segmentos corpóreos das vítimas, arrastadas pela onda de rejeitos.
Josiane Melo, diretora da AVABRUM e irmã da vítima fatal Eliane Melo (39 anos) – que estava grávida à época da tragédia – destacou que a presença de investidores em Brumadinho representa um marco na discussão sobre o papel do capital privado na transformação do setor. Para ela, nenhuma proposta de padrões globais ESG, transição energética do setor de mineração pode ignorar os rompimentos das barragens da Samarco/BHP/Vale em Mariana e da Vale em Brumadinho, nem a voz das famílias que vivenciam cotidianamente as consequências dessas tragédias eternamente.
Em uma fala marcada pela firmeza e emoção, Josiane alertou: “Sabemos da importância da mineração, mas ela precisa respeitar primeiro a vida. Os investidores que participaram desse encontro e colocam recursos nas mineradoras precisam cobrar mais responsabilidade e segurança no setor, não apenas no papel, mas de forma efetiva. Ambas as barragens que se romperam tinham laudos de estabilidade e não estavam classificadas como risco potencial de rompimento. Uma mineração manchada com sangue não pode continuar gerando lucros sem responsabilização. A impunidade torna o crime recorrente”.

Josiane também relembrou sua vivência como trabalhadora da Vale na Mina Córrego do Feijão, relatando que, meses antes da tragédia, a empresa promoveu um treinamento sobre rota de fuga que, na prática, coincidia com o caminho da lama caso a barragem se rompesse. “Todos acreditávamos no que a empresa pregava: segurança em primeiro lugar, que todo trabalhador voltasse íntegro para casa. Achávamos que estávamos no lugar mais seguro do mundo e a empresa nos traiu”, contou.
Memória e futuro
O Memorial Brumadinho, inaugurado em 2025 e construído a partir da reivindicação da AVABRUM, se consolidou como um espaço de memória e reflexão sobre os impactos da mineração. Para Fabíola Moulin, diretora-presidente da Fundação Memorial de Brumadinho, o encontro reforça o papel do espaço como elo entre memória e futuro. “O Memorial é um lugar de escuta e reflexão, mas também de transformação. Ao receber iniciativas como o Mining 2030, reafirmamos o papel de Brumadinho como território vivo e de debate. Não há futuro sustentável sem memória, nem justiça social sem justiça ambiental”, destacou.
A promotora de Justiça Ludmila Costa ressaltou a importância do Memorial e da narrativa construída pelos familiares sobre o que aconteceu. Segundo ela, essa narrativa é essencial para que o setor da mineração compreenda sua responsabilidade e a necessidade de mudanças estruturais.
Entre os presentes, esteve também Caio Prado, diretor da AECOM Brasil, que ressaltou o impacto do encontro. “Foi especialmente comovente perceber que a voz dessas famílias, que transformaram a dor em luta por responsabilidade e transparência, alcançou um grupo tão seleto de investidores e empresários que, através da Comissão Global Mining 2030, tem buscado promover uma mudança na indústria da mineração. A mensagem transmitida no Memorial reafirma a urgência de uma indústria verdadeiramente segura, responsável e humana”, afirmou.
Ao reunir familiares, representantes institucionais e investidores internacionais, o encontro no Memorial Brumadinho reafirmou a importância da escuta e da corresponsabilidade na construção de uma mineração mais justa. Para a AVABRUM, transformar o luto em ação e garantir que a vida esteja no centro das decisões econômicas passa também pela responsabilização das empresas e dos indiciados pelos crimes cometidos. “Vamos seguir firmes, porque a nossa dor virou voz e essa voz não vai se calar enquanto a mineração não colocar a vida acima de tudo e obtivermos sucesso nos processos criminais no Brasil e na Alemanha” concluiu Josiane Melo.



